A Família No Séc. XXI

A Família No Séc. XXI

Num tempo em que se fala tanto no conceito de família por este estar em mudança e tão pouco se aborda por não se compreender que tipo de família temos ou queremos, importa dissertar um pouco acerca desta realidade.


É inevitável a consciência de que o antigo modelo de família que tem por base a procriação e por constituir um núcleo segregado de solidariedade, parece não estar a dar respostas aos novos desafios da atualidade e em continuar (da mesma forma) o papel histórico de ajudar o ser humano a sobreviver.

No entanto, não nos podemos esquecer do que está por detrás destas mudanças: em primeiro lugar, a incerteza que este mundo atual atravessa, depois as consequências que estão a resultar de um período essencialmente econômico em que homens e mulheres se vêm perante uma emergência de alteração dos seus papéis.

Ao mesmo tempo, a forma de vida cada vez mais exigente e intelectualizada que não aceita uma vida conjugal meramente procriativa, já que homens e mulheres se interessam pela realização, pela necessidade de trabalhar, de investir na sua carreira e de colocar o antigo padrão biológico para um segundo plano.

Numa outra perspectiva, o casamento tardio, o amadurecimento mais lento e a dificuldade em discernir o namoro do casamento têm igualmente reduzido o relacionamento bem sucedido e com uma duração sustentável, sem esquecer o outro lado da realidade daqueles que não têm estabilidade profissional, nem podem ambicionar uma vida em conjunto pela falta de segurança.

Todos estes fatores que muito se distanciam dos conhecidos no passado, colocam-nos perante uma necessidade de encarar a família como um espaço de realização, de prazer numa escolha livre e que, muitas vezes, é a possível.

Assim, socialmente assistimos aos mais variados conceitos de família que, no passado poderia constituir um “pecado” e que neste tempo não é mais do que uma solução para o encontro da felicidade e da sobrevivência humana.

Vejamos o que aconteceria a alguém que se divorciou, que tem filhos e o quanto, a falta de outro modelo familiar o poderia projectar para a solidão ou a mulher que se vê com filhos, sem um companheiro que a proteja e acaba por constituir uma família com uma pessoa do mesmo sexo ou com algum grau de parentesco.

É atendendo à necessidade de organização social e de legislar o mais possível todas as particularidades humanas que se assiste a um período de reestruturação familiar, onde se incluem as diferenças. Partindo do pressuposto de que, cada um deve estar bem com quem o satisfaça, concordamos que é natural e interessante aceitar que, cada sujeito tenha essa liberdade de conquista e que possa escolher a forma mais adequada para o seu equilíbrio.

Assim, existem famílias monoparentais, numerosas, nucleares, alargadas, restritas, constituídas por pessoas do mesmo sexo onde, acima de tudo, o valor da união assenta numa forma de felicidade, de companheirismo, de trocas, de benefícios e de prejuízos que sustentam a vida em conjunto.

Em resumo, consoante as necessidades, assim se ajustam os modelos familiares, o que pode passar por ter filhos de 2 casamentos, por ter idosos ou demais elementos no seio da família, pela união conjugal, pelo casamento tradicional ou por um casamento que não é mais do que um namoro e que como tal, pode ter uma duração comprometida.
O séc. XXI traz-nos o inédito desafio do “crescei pouco e não te multiplicais”, o que, não sendo aplicável a todos, abarca os problemas acima descritos e confere um caráter mais alargado ao conceito de família outrora conhecido.

Assim, fenômenos reais como: o aumento do custo de vida e a consciência das dificuldades que o mundo atravessa, a falta de garantias aos jovens, a dificuldade em assegurar o direito ao emprego e à inclusão, a tendência para casar e comprar casa, o que afasta pais e filhos naturalmente torna inevitável a construção de novas formas de encarar e de viver a família tendo por base outros valores de união numa procura de sentimentos e não de corresponder aos modelos instituídos pelo passado.

Tenhamos ainda em conta que, muitas vezes, não se trata de uma opção á partida, mas de uma necessidade de sobrevivência imposta pela evolução social o que nos leva a um desvio da rigidez relacional e à inclusão de formas alternativas. Assim, temos que perceber uma nova realidade biológica a par de uma nova lógica de vida e aprendermos a conviver com uma forma mais individualizada de escolha que pode atender à mulher que vive só ou ao homem que opta pela carreira.

Se perdermos a noção de família na sua forma funcional e biológica, isso não traduz a redução dos laços e a procura de sentimentos e de uma estabilidade eficaz pelo que é fundamental a aceitação de novos paradigmas relacionais e a procura de respostas atualizadas para um fenômeno que se constrói diariamente.

Inevitavelmente, esta mudança altera os papéis culturais de homens e mulheres.

Os homens atravessam um processo reverso aos últimos milênios em que se assentava meramente no lado “paternal" e a mulher assumiu o seu lado “maternal”, por outro turno, este novo século desenha um homem mais dispensável e traz o desafio de recriar a sua função e imagem como uma nova expressão cultural.

A mulher procura outras formas de valorização que estão para além da maternidade, o que é uma profunda revolução.

Claro que, todos estes fatores apontariam para um fim da família como a conhecemos, contudo, não podemos perder de vista que há forças distintas e muito poderosas que invertem esta tendência, pelo que existem grupos populacionais que continuam a privilegiar a família como um laço fundamental para a sua estabilidade e valorização no mundo.

Nestes modelos impera o conceito de que a família nuclear (pais e filhos) continua a ser o modelo dominante.

Se por um lado, estas distinções são fundamentais e aceitáveis como uma resposta aos novos tempos, por outro tem feito desencadear sentimentos de “inveja” nos que não têm esse modelo familiar pelas mais variadas razões.

E, apesar de todas estas alterações, o sonho do casamento, não por motivos de formação de família, mas de encontrar estabilidade ainda está "em alta".

Podemos reconhecer que o séc. XXI é o início de uma mudança profunda no conceito de família e nos seus objetivos, pois estamos saindo da regra biológica e passando para uma forma socializada de família.

Assim, é preciso encarar estas renovações, não como uma forma de descartar a família, mas sim, como uma tentativa de tornar possível o direito de família a todos e de uma forma eficaz, pois o anterior modelo foi a forma mais estável e segura de ajudar o ser humano a sobreviver.

Neste sentido, qualquer alternativa é sempre positiva desde que se faça transportar dos laços essenciais para garantir a realização e a felicidade humana.

Neste contexto, assistimos a uma diversidade familiar e não a uma substituição da família, sendo que o grande desafio é que todos sejam aceites, respeitados e que consigam a desejada satisfação pessoal.

 

Álvaro Félix