A Aquisição de Linguagem

A Aquisição de Linguagem

 

 

 

Introdução

Aprender vivendo: as experiências de vida no desenvolvimento e na aprendizagem” é o título do texto que escolhi trabalhar. À primeira vista, o título remete-nos para uma questão mais ligada ao comportamento humano como resultado da sociedade em que nos inserimos. Não posso negar que o texto não toque indirectamente nessa variante, mas este vira-se sobretudo para a aquisição de linguagem por parte das crianças, tendo em conta o contacto que estas estabelecem com o meio.

O texto relata as etapas que conduzem a criança para a aquisição da linguagem, de maneira a poder compartilhar experiências e impressões.

Isabel Matta, a autora do texto, explica a sua concepção sobre a evolução da linguagem, passando pelas percepções sensoriais do bebé, representações mentais linguísticas e as dificuldades de narração da criança. O objectivo desta abordagem insere-se no facto de a inserção do meio sócio-cultural originar alterações nas crianças a nível cognitivo, à medida que estas se inserem cada vez mais na sociedade.

Os bebés, por exemplo, apesar de aparentemente condicionados ao facto de não dominarem a linguagem, comunicam com os adultos e até têm a capacidade de tomar iniciativas mediante determinados estímulos associados a expressões de adultos e interacções com objectos. Logo não podemos negar que estes interagem com o meio. São as rotinas diárias que lhes dão todos os conhecimentos de que necessitam para interagir com o meio. Durante os dois anos a criança necessita de uma ajuda para evoluir o processo de aquisição de linguagem e descrição de um acontecimento. Na idade do pré-escolar a criança já estabelece uma espécie de descrição de acontecimentos, mas ainda bastante incompleta e pouco perceptível. É depois de se adaptar a formas temporais e condicionais que ela se torna apta a realizar uma narração e a descrever uma experiência, tornando-se igualmente apta para utilizar o pensamento e a linguagem em simultâneo. É também nesta fase que ela começa a ser capaz de ouvir e falar quando um interlocutor lhe solicita tal. Mais tarde, por volta dos 9 / 10 anos vai ser capaz de defender não só os seus pontos de vista como os dos outros.

De um modo bastante generalista são estes os assuntos que Isabel Matta aborda ao longo do artigo que analisei.

O meu trabalho é composto pelos seguintes temas:

- A aquisição de Linguagem segundo Piaget, Bruner e Vygotsky

Neste capítulo abordo algumas concepções de Piaget, Bruner e Vygotsky relativamente à aquisição de linguagem por parte da criança, segundo o meio em que esta se insere.

- Metodologia e Resultados da Parte Experimental do Texto

Isabel Matta dá-nos a conhecer alguns estudos realizados com crianças relativamente ao discurso entre mãe e filho, os diferentes níveis de desenvolvimento da narração e a eficácia da narração na aprendizagem. Neste capítulo vou portanto analisar, segundo os dados que me são fornecidos no texto, as várias actividades experimentais.

- Síntese do Texto

Neste capítulo refiro e sintetizo o principal conteúdo do texto.

- Conclusão

Por fim, dou o meu parecer relativamente ao tema trabalhado.

- Bibliografia

Aqui dou a fonte de onde recolhi o artigo que estudei, bem como a fonte de onde tirei as informações relativas a Piaget, Bruner e a Vygotsky.

- Anexos

Fotocópia do artigo que apresentei neste trabalho.

A aquisição de Linguagem segundo Piaget, Bruner e Vygotsky

Piaget

Para Piaget existem quatro factores fundamentais no desenvolvimento cognitivo: a hereditariedade, a adaptação, os esquemas e o equilíbrio das estruturas cognitivas. A hereditariedade é relevante porque todo o sujeito herda um conjunto de estruturas biológicas que se desenvolvem em contacto com o meio ambiente e que favorecem o aparecimento das estruturas mentais. Da adaptação fazem parte dois processos: a assimilação e a acomodação e são estes que permitem ao indivíduo responder aos desafios do ambiente que o rodeia. Os esquemas correspondem à nossa estrutura básica no que respeita a possíveis respostas perante estímulos exteriores. Quanto ao equilíbrio das estruturas cognitivas, este consiste num processo de auto-regulação interna de modo a regular os equilíbrios com os desequilíbrios. Piaget considera que o desenvolvimento cognitivo é um processo dinâmico,   que decorre da construção de estruturas de conhecimento através da interacção sujeito – objecto.

Os estádios do desenvolvimento de Piaget caracterizam as diferentes formas de interacção do indivíduo com a realidade. Podemos ver as características necessárias ao estabelecimento da linguagem humana nos seguintes estádios:

Estádio sensório – motor (± 0 a 2 anos): informação obtida pelos sentidos e pelas acções; permanência do objecto; acções começam a ter uma lógica. (…)

Estádio pré-operatório (± 2 a 7 anos): capacidade em conceber operações; desenvolvimento gradual da linguagem; desenvolvimento gradual da capacidade simbólica (…)

Bruner

O principal objecto de estudo de Jerome Bruner é a aquisição de processos cognitivos pelo ser humano, ou seja, como se dá a gradual aquisição de conhecimentos que irão servir de instrumento para o homem decifrar o meio que o envolve (transformando-o e dominando-o), bem como para a solução de problemas, percepção da realidade observada (através de sistemas de representação adequados), raciocínio e reconhecimento perceptíveis.

Bruner, nos seus estudos, confere uma nítida ênfase à linguagem como o principal meio de representação simbólica da realidade, tanto concreta quanto abstracta. O homem constrói o conceito que adquire do mundo através dos "símbolos linguísticos" (palavras) aos quais, gradualmente, vai atribuindo significados ao nível subjectivo e consensual.

Também irá estabelecer uma relação intrínseca entre o modo de representação visual (ou icónico), com o conceito da "representação linguística". Ele observa que a "representação visual'; um desenho, por exemplo, é uma das primeiras formas de comunicação utilizada pela criança, juntamente com as "representações activas".

As "representações activas" feitas pelas crianças nos seus primeiros estágios de desenvolvimento, por sua vez, corresponde a tentativa de representação de determinadas realidades, através da supressão do estágio de representação linguística. Como por exemplo, podemos citar a criança que quando ouve a palavra "buraco", lhe vem imediatamente na cabeça o acto de cavar. e, daí por diante, a criança vai elaborando inúmeras "representações activas" que objectivam substituir a linguagem ainda mal formada num processo de desenvolvimento.

Segundo Bruner, na tentativa de adquirir conhecimentos básicos para "decifrar" o meio em que está inserido, o homem acaba por discernir estratégias sistemáticas de comportamento, reconhecendo, continuamente, regularidades dentro da complexidade dos fenómenos do mundo que o cerca. A partir daí, ele começa a formar conceitos estratégicos que, com o passar do tempo, devidamente assimilados e sentimentalizados, permitir-lhe-ão influir sobre o meio, com o poder de moldá-lo e transformá-lo.

Bruner relaciona, basicamente, o comportamento do indivíduo com a aquisição de conhecimentos pelo mesmo. É a educação, encarada como um processo sistemático ou não, que servirá de instrumento para que o homem possa dominar o meio em que vive.

Também foi objecto das pesquisas de Bruner a origem da actividade cognitiva humana, tendo obtido como resultado uma abordagem, de certa forma, contingêncial para a época - pois na formulação de seus conceitos básicos ele soube como usar elementos das teorias anteriores, além da mais completa e apropriada tentativa de explicar as teorias sobre o desenvolvimento intelectual humano.

Observou, igualmente, que a eficiência na aquisição dos processos cognitivos (e seu posterior desenvolvimento) não se dava, de forma alguma, de maneira igual de pessoa para pessoa. Portanto, pode observar, na prática, que cada indivíduo assimila informação em tempos e ritmos diferentes, de acordo com seus respectivos potenciais e capacidades.

"Há uma diferença entre o comportamento que enfrenta as exigências de um problema e aquele que procura defender-se de qualquer participação (...). A última forma não é uma visão distorcida da primeira; é uma posição diversa como objectivos e necessidades diferentes". (Jerome S. Bruner)

Para Bruner, o mundo, no estado natural precisa de ser totalmente descodificado pelo homem. Essa "descodificação" será viável através da aquisição, pelo indivíduo, dos mecanismos de "representações visuais", linguísticos, activos e simbólicos, que serão os instrumentos básicos com os quais o homem vai se habilitar a construir conceitos para entender realidades maiores, mais abrangentes e complexas.

Assim, o homem só é capaz de entender o meio em que habita, se o for desvendando gradualmente, através da construção dos "conceitos estratégicos", que serão a semente do pensamento e do raciocínio lógico ordenado, da fase adulta. Tais "conceitos – estratégicos" só podem ser estruturados e formulados, apropriadamente, através de um sistema pré-estabelecido de representações simbólicas que objectivam tornar o mundo inteligível ao nível da compreensão humana. Tais sistemas de representações simbólicas que o homem elabora (até mesmo ao nível inconsciente), permitirão ao mesmo transladar a sua experiência a um modelo conceptual do mundo por ele construído.

O ser humano precisa, portanto, de dominar os sistemas de representação que, teoricamente, simbolizam o mundo, e deles fazer uso constante a fim de decifrar realidades contingentes e mais complexas. Segundo Bruner, isso é o que há de mais interessante no estudo do desenvolvimento cognitivo como um todo.

Bruner discute como a linguagem influi directamente nos processos cognitivos.

"A nova ênfase nos aspectos universais da linguagem sugere um bom ponto de partida: quais as consequências que decorrem das propriedades mais gerais da linguagem? Tal preocupação leva-me a pôr a linguagem no centro do palco ao considerar a natureza do desenvolvimento intelectual".

Com esse simples pensamento, Bruner sintetiza a importância crucial da linguagem como instrumento de apreensão da realidade do meio.

E mais além: "O certo é que quanto mais conhecemos sobre as propriedades e poderes da linguagem, mais devemos saber sobre como usá-la para ajudar o raciocínio.

Vygotsky

As concepções de Vygotsky sobre o processo de formação de conceitos remetem às relações entre pensamento e linguagem, à questão cultural no processo de construção de significados pelos indivíduos, ao processo de interiorização e ao papel da escola na transmissão de conhecimento, que é de natureza diferente daqueles aprendidos na vida quotidiana. Propõe uma visão de formação das funções psíquicas superiores como interiorização mediada pela cultura. A linguagem, sistema simbólico dos grupos humanos, representa um salto qualitativo na evolução da espécie. É ela que fornece os conceitos, as formas de organização do real, a mediação entre o sujeito e o objecto do conhecimento. É por meio dela que as funções mentais superiores são socialmente formadas e culturalmente transmitidas e assim as sociedades e culturas diferentes produzem estruturas igualmente diferentes.

Metodologia e Resultados da Parte Experimental do Texto

 

População

Objectivo

Materiais/

Procedimento

Resultados

Obtidos

Estudo de Trevarthen

-“Mães”

- bebés de várias idades, incluindo bebés com apenas algumas semanas de vida

Verificar o modelo comunicativo entre as mães e os respectivos bebés

O bebé ao executar um gesto involuntário, a mãe respondia com um gesto semelhante.

Estabelecimento de longas cadeias comunicativas

Desenvolvimento da narração

- centenas de crianças com idades entre os 3 e 8 anos.

Comprovar o diferente desenvolvimento do processo narrativo nas crianças

A propósito de um desenho, as crianças estabeleciam um discurso próprio.

- Confirmação que a capacidade de narração está em desenvolvimento nestas idades

- Verificou-se no entanto, que algumas crianças de 5 anos conseguem encadear uma sequência narrativa, enquanto que há algumas com 6 e 7 anos que não o conseguem fazer.

- Verificou-se também que algumas crianças conseguiam aos 8 anos encadear um processo ao narrativo e que posteriormente aos 9 anos, parecia haver uma regressão dessa aprendizagem.

1.Papel das estruturas  esquemáticas no

desenvolvimento conceptual

 

- “mães”

- crianças com idades compreendidas entre os 3 e 4 anos

-O papel das estruturas esquemáticas no desenvolvimento conceptual

(sem informação específica, mas baseia-se supostamente em estabelecer uma corrente de comunicação entre mães e filhos).

- Vai de encontro com as teses de Bruner (1990), Bronckart (1995) e Nelson (1985, 1986, 1996) “sobre a importância do primeiro momento, caracterizado pela construção de uma intersubjectividade a partir de uma actividade referencial, e a progressiva construção de uma significação partilhada, pelo recurso a um contexto interpretativo fornecido pelas estruturas discursivas, nomeadamente do tipo narrativo.”

2.Capacidade da criança para mobilizar as estruturas discursivas enquanto organizadores cognitivos

(Sem dados neste texto)

Estudo da possibilidade da criança utilizar as estruturas discursivas enquanto Organizadores Cognitivos.

(Sem dados neste texto)

(Sem dados neste texto)

3. As estruturas discursivas podem também funcionar como instrumento ao serviço da cognição?

 

a) Pintura de Picasso

Crianças com níveis etários dos 5 aos 7 anos.

Verificar qual a estrutura (narrativa ou discursiva) mais adequada à memorização.

-As diferentes faixas etárias repartiram-se de igual modo por dois grupos.

-Foram transmitidas informações sobre obras de Picasso, de forma narrativa a um grupo de crianças.

-Ao outro grupo as informações foram transmitidas de forma descritiva.

As crianças do pré-escolar (5 / 6 anos)e inicio de escolaridade (6 / 7 anos) beneficiaram com as informações do tipo narrativo.

b) Visita ao Oceanário

-As diferentes faixas etárias repartiram-se de igual modo por três grupos.

- As explicações sobre o Oceanário foram dadas de forma diferente a cada grupo: um recebeu informações descritivas; o outro recebeu informação narrativas e o último recebeu “ausência de verbalização”.

-A retenção de informação foi maior com o discurso narrativo.

- Houve um decréscimo significativo de informação recordada com o grupo que teve “ausência de verbalização”.

- As crianças que receberam discurso verbalizado prestaram contudo também atenção à informação envolvente não verbalizada.

 

Síntese do Texto

A criança à medida que se insere na sociedade torna-se mais participante e competente ao nível sócio-cultural. A partir desta sua inserção ela desenvolve as suas estruturas cognitivas. Este desenvolvimento ocorre principalmente em três períodos que vão desde os 3 / 4 anos de idade até ao fim do 1ºciclo:

Na passagem do 1º período (organização pré - linguística baseada em actividades) para o 2º período (organização convencional e popular, baseada no uso quotidiano de linguagem e campo lexical), a criança coordena um sistema primitivo baseado na experiência e na participação em acontecimentos com um sistema revelado pelo uso da linguagem.

Na passagem do 2º período para o 3º (nível forma, teórico adquirido pela instrução), a criança dentro do sistema cultural tem a capacidade de transformar os termos de estruturas de conhecimento estabelecido nas comunidades.

Existe um nível intermédio baseado no uso da linguagem do quotidiano, em que a criança começa a definir uma organização de conceitos, segundo domínios organizadores que servem fins culturais. A criança ainda nesta fase, adquire a capacidade de narrar uma sucessão de acontecimentos já vividos, bem como a capacidade de os julgar. A narrativa e a organização segundo categorias, são essenciais para a criança ordenar a memória e o conhecimento bem como para práticas abstractas, teóricas e formais.

NATUREZA DAS EXPERIÊNCIAS PRECOCES E PRIMEIRAS FORMAS DE REPRESENTAÇÃO

O bebé a partir da sua capacidade sensorial, adquire as primeiras formas de representação a partir do quotidiano e das interacções com um adulto. Ele próprio define diferentes níveis de importância entre os adultos que o rodeiam e começa a construir uma ideologia sobre o que é ser humano.

A construção da mente pré-linguística deriva da experiência social ao qual o bebé é submetido e é adquirida pela rotina e partilha de espaços sociais com outras crianças. A partir das brincadeiras que ele desenvolve durante o dia, seja no banho ou a comer, o bebé já está a desenvolver um modelo comunicativo.

Segundo Trevarthen (1979, 1980), pode-se estabelecer cadeias longas de comunicação entre mãe e bebé, basta para isso o bebé fazer um gesto que a mãe logo em seguida imita.

Gradualmente os bebés produzem intencionalmente vários sons e gestos apelativos (intersubjectividade primária) e mais tarde começam a associar os sons e gestos produzidos a objectos do mundo (intersubjectividade secundária).

Até os três meses, o bebé revela uma maior atenção para as pessoas do que para os objectos. Numa fase intermédia chega mesmo a interagir com objectos e pessoas sem os saber distinguir.

Por volta dos 9 / 10 meses, os bebés são capazes de repetir uma acção a partir de estruturas meramente repetitivas que estejam mediadas por objectos e pessoas. Isto leva a que o bebé possa ter as suas próprias iniciativas, embora esteja sujeito a padrões regulares, sistemáticos, limitados e repetitivos. Essas iniciativas podem estar relacionadas com atitudes do adulto, nomeadamente atitudes como exclamações, sons, palavras ou frases curtas. Todas estas estruturas estabelecidas pelo bebé estão abertas a alterações e levam a que o bebé compreenda as interacções do parceiro bem como o contexto cultural onde se desenrolam.

Nas rotinas diárias as acções com objectivos e pessoas, os objectos, as relações de espaço e tempo levam a que o bebé adquira as primeiras convenções linguísticas baseadas em palavras pré - léxicas sem qualquer base conceptual ou valor referencial. As palavras pré -léxicas vão ser somente elementos que fazem parte do desenrolar de acontecimentos. Estas são adquiridas pelos bebés a partir dos contextos em que as ouvem serem ditas pelos adultos. Embora nesta fase elas não tenham qualquer base conceptual, mais tarde as crianças atribuem-lhe o seu significado. É nesta fase que a criança organiza a experiência do mundo envolvente, categoriza o real e fragmenta as suas representações gerais, reconhecendo elementos estáveis (objectos, pessoas, estados, acções) que ao surgirem em diferentes contextos recebem o mesmo nome. Quando nos vários momentos da rotina, a criança utiliza gestos para indicar o que quer, ela já está no bom caminho do aparecimento da linguagem.

REPRESENTAÇÃO MENTAL LINGUÍSTICA

A partir da representação mental linguística, a criança sofre uma alteração a nível cognitivo e a nível das suas representações mentais.

Segundo Nelson & Gruendel, as crianças desde muito cedo procuram definir modelos cognitivos do mundo em que vivem. Pessoas, objectos e acções são os componentes desses modelos que durante a infância se fragmentam em pequenos acontecimentos possíveis de se ligar (exemplo: hora de almoço, hora do lanche, hora do banho, hora de jantar, hora de dormir, etc…). A linguagem vai ter um papel fundamental na organização destes fragmentos pois estes deixam de ser vistos como particularizações da rotina e passam também a ser vistos e percebidos em diferentes contextos e situações novas.

A narração obriga a que se estabeleça uma relação de acontecimentos com experiências vividas em que se insere o novo e o velho, o esperado e o inesperado… Todo o discurso efectivo da narração é linear, ordenado no tempo e uni - dimensional, dado que a capacidade de narrar requer a recomposição duma forma linear de experiência multi-dimensional (quando corre numa experiência várias situações em simultâneo).

A linguagem da narração vai permitir à criança: estabilizar a experiência, situá-la no tempo e espaço, obrigar a separar e a reordenar partes da experiência de maneira a articulá-la.

A partir do 3 / 4 anos a criança vai evoluir num sistema conversacional narrativo, social e mental. É no pré-escolar que ela se rege pelo pensamento e fala e é também nesta altura que ela se especializa em escutar e falar, o que exige um bom domínio da linguagem. As características que ela aqui adquire vão lhe permitir mais tarde, durante a aprendizagem da linguagem escrita, a expressar os seus pontos de vista.

A narrativa que se baseia em representações de acontecimentos e experiências tem que se desenvolver como meio de partilha antes de se tornar num modo de representação interna. O desenvolvimento da linguagem é útil, contudo a linguagem narrativa tem de ter formas: temporais, causais, intencionais e condicionais. São estas formas que estabelecem uma relação numa história de forma a tornar todo o discurso inteligível. Estas narrações dão um outro significado e riqueza à experiência vivida pela criança apenas como participante.

NARRATIVA PARTILHAR/INVENTAR

A produção e a compreensão da narrativa parece para os adultos algo insignificativo, o mesmo não se passa com as crianças. Elas encaram esta actividade como algo complexo e envolvente de vários níveis de representação e procedimentos variados. A capacidade de produção e compreensão da criança pode ser abordada segundo a capacidade de selecção e organização de ideias e segundo a sua dimensão linguística. Há que ter em conta que a narração não é só enunciar personagens, locais, objectos e acontecimentos há que prever as consequências do discurso no ouvinte. Os conceitos: objectivo, plano, acção, resultado, avaliação e obstáculo às acções; formam uma sequência à qual a criança se deve reger para seleccionar a informação do discurso. A parte linguística insere-se na estrutura da narrativa durante a aplicação de temas gramaticais diversificados.

Durante os 4 e 8 anos, a criança já tem a capacidade de produzir uma história coerente, contudo até aos 10 anos ocorre uma grande evolução a nível dos conceitos causal e temporal no processo cognitivo da criança, ou seja é a partir deste período que a criança fica apta a seleccionar informação, mobilizando-a, encadeando-a e actualizando-a.

Existem porém situações difíceis de se interpretar associadas a crianças que parecem passar por uma regressão de aprendizagem de narração ou crianças que com a mesma idade possuem diferentes níveis de desenvolvimento.

Uma explicação possível para tal facto deve-se à transferência de responsabilidade de crianças mais velhas quando deixam de lidar com as mais novas.

A ajuda de outros perante a construção da narrativa de acontecimentos passados, começa aos 2 anos e leva a que a criança desenvolva as suas próprias perícias de maneira a enriquecer cada vez mais a sua capacidade de formular um discurso. A interacção com alguém próximo como a mãe é essencial para desenvolver a forma de como a criança pode comunicar. Segundo Matta (2000) entre os 3 / 4 anos, a criança pode estabelecer com a mãe um discurso orientado por esta, de maneira a que a criança partilhe o nível de significação e perceba directivas indirectas. Este discurso com a intervenção da mãe é reduzido a partir dos 5/ 6 anos e 7/ 8 anos, altura em que a criança já se encontra apta para dominar uma situação de discurso.

Outra explicação surge associada ao facto de a criança aos 4/ 5 anos ouvir histórias e como tal assumir a capacidade de recontá-las. Este tipo de crianças vai mais tarde mostrar uma maior facilidade em recontar o que aconteceu na escola, ou numa ida às compras, etc. Contudo por volta dos 6 / 7 anos, o relato dessas crianças vai se tornar muito incompleto devido ao facto de estas serem muito sensíveis a mudanças contextuais, orais, escritas e de narração com base em imagens, experiências e afins. Isto pode ser fruto de uma irregularidade entre os conhecimentos disponíveis e a mobilização/coordenação destes.

Foram porém desenvolvidos outros estudos a fim de verificar a relação entre as experiências de vida e as estruturas esquemáticas no desenvolvimento e funcionamento cognitivo:

1. Papel das estruturas esquemáticas no desenvolvimento conceptual

Segundo Matta (1999, 2000), “A Narrativa é mobilizada por mães e crianças desde os 3 / 4 anos, enquanto organizador de comunicação e cognição.” Isto vai de encontro com as teses de Bronckart (1995), Brunner (1990) e Nelson (1985, 1986, 1996) no que toca a importância de um primeiro momento caracterizado pela construção de intersubjectividade a partir de uma actividade referencial e a progressiva construção de uma significação partilhada, pelo recurso a um contexto interpretativo fornecido pelo discurso narrativo.

2. Capacidade da criança para mobilizar as estruturas discursivas enquanto organizadores   cognitivos.

3.As estruturas discursivas podem também funcionar como instrumento ao serviço da cognição?

    1. Grupos de crianças de vários níveis etários foram divididos ao meio. Metade do grupo recebeu informações relativas a um quadro de Picasso de forma descritiva, enquanto que o outro grupo recebeu informações de modo narrativo. A retenção de informação foi medida na altura e após 15 dias. Verificou-se que as crianças do pré-escolar adquiriram mais informação com o discurso narrativo do que as outras crianças submetidas ao processo descritivo.
    2. Numa visita ao Oceanário de Lisboa foram fornecidas a grupos de crianças informações ao nível descritivo, narrativo e a nível de ausência de verbalização. A retenção de informação foi muito maior no nível narrativo e houve um enorme decréscimo de retenção de informação nas crianças que tiveram ausência de verbalização.

O formato narrativo leva a um discurso bastante organizado, conciso e complexo por parte das crianças, contudo o a parte descritiva tem também a sua importância durante a ocorrência de situações de situações experimentais.

Verifica-se pois que a criança começa por inserir-se nas experiências do dia a dia, de forma apenas participativa para depois começar a reflectir sobre essas experiências e a desenvolver a linguagem e posteriormente a capacidade de narração. Apesar de inicialmente a linguagem ser só um símbolo, mais tarde esta converter-se-á na inteligência que suporta esse símbolo.

A criança vive num mundo sócio-cultural e com essa vivência não poderá deixar de se sujeitar às experiências do quotidiano que lhe desenvolvem as suas estruturas cognitivas e proporcionam novos conhecimentos.

Conclusão

Relativamente à aquisição da linguagem pelas crianças, a meu ver, esta acontecia devido às estruturas inatas com as quais nascemos e que funcionam como pré - requisitos necessários à aquisição de linguagem. O processo de aquisição de linguagem partiria dessas estruturas e ia sendo feito de forma gradual, tendo em conta a convivência dos bebés com a família. A família funcionaria assim como um estímulo para a criança adquirir a sua própria linguagem. Em parte parece que me apoio numa teoria construtivista segundo Piaget, pois afinal refiro que a linguagem é fruto do sujeito com o meio e que o sujeito desenvolve-se na medida em que tenta adaptar-se ao meio envolvente. Contudo a minha concepção sobre o aparecimento da linguagem no ser humano foi fruto de alguns estudos efectuados numa disciplina do ano passado, em que abordámos o conceito de aquisição de linguagem por parte das crianças. Claro que esta minha ideia não foi totalmente contrariada pelo texto, penso que foi simplesmente aprofundada. Não estava errada quando a meu ver via o desenvolvimento da linguagem pela interacção da criança com o meio envolvente, porque afinal Isabel Matta refere o quotidiano como fundamental, para as primeiras concepções linguísticas da criança.

A aquisição da linguagem por muito subjectiva que nos pareça, é sim fruto de um processo complexo e prolongado de inserção da criança com a experiência num contexto sócio-cultural. Deste modo verifica-se que a experiência humana não origina só conhecimentos sobre a forma de como nos devemos comportar e agir no dia a dia. A experiência de vida pode determinar uma pessoa e ensinar-lhe não só como se deve agir perante determinadas situações, mas também transmitir conhecimentos necessários e indispensáveis à nossa condição humana, como é o caso da linguagem. O fundamental é que a linguagem humana seja implementada pela interacção entre a criança e as pessoas que a rodeiam.

Bruner defende a aquisição da linguagem com uma teoria subjacente à de Isabel Matta. Segundo este pedagogo, é importante o homem estar em contacto com o meio de forma a perceber o que envolve.

Bruner defende que a aquisição de conhecimentos se dá através do contacto de um indivíduo com o meio envolvente e o desenvolvimento destes ocorre posteriormente de maneira a estabelecer uma conexão com o que já foi apreendido e o que ainda não foi.

Vygotsky defende que a aquisição de conhecimentos se dá entre o sujeito e o objecto de conhecimento, quando estes entram em contacto. A linguagem surge como fruto desta relação, ou seja a linguagem é adquirida a partir das estruturas do indivíduo humano e do contacto do indivíduo para com os conceitos do dia a dia.

Quanto ao aspecto narrativo defendido por Isabel Matta, a sua construção é sempre posterior à linguagem, mas é dele que deriva a capacidade grande parte da capacidade de estabelecimento de diálogo e partilha de situações do quotidiano. O discurso narrativo é um processo complexo, adquirido gradualmente mas bastante importante para o quotidiano do ser humano. Ele depende das aquisições anteriores da linguagem devido à necessidade de desenvolver estas a partir do contacto com o meio.

Por fim e concluindo o estudo de Isabel Matta há que afirmar que de facto as experiências sócio-culturais podem determinar aspectos cognitivos, ou seja a partir do meio podemos obter conhecimentos de diferentes leques, não só a nível social e moral como também a nível da cognição. Há pois que relacionar o meio envolvente com as estruturas mentais que nos determinam.

Bibliografia

MATTA,  Isabel; (2004). Aprender vivendo: As experiências de vida no desenvolvimento e na aprendizagem. Análise Psicológica . Série XXII, nº1, pp 73-80

DUARTE, Inês (2000). Língua Portuguesa – Instrumentos de Análise. Universidade Aberta

PAPALIAS, Diane E.; OLDS, Sally Wendkos; FELDMAN, Ruth Duskin; (1999). O Mundo da Criança. Mc Graw Hill

COIMBRA, J. Luís; CASTRO, Maria G.; (2002). Psicologia – o essencial do 12ºano. Edições Asa

http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/seminario/piaget/desenvolvi.htm

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http://maxpages.com/elias/A_aprendizagem_segundo_Bruner